segunda-feira, 20 de maio de 2013

Selo Plug


O SELO PLUG

  O ano era 1987, o país sofria a pior crise econômica de sua história. O então
  presidente José Sarney tramava para permanecer mais um ano no cargo,
  institucionalizando a já conhecida política do "é dando que se recebe". Eram
  tempos de recessão e incerteza. Depois do fracassado Plano cruzado II; A
  missão; de novembro de 86, era vez do Plano Bresser. Caminhávamos a passos
  largos para hiperinflação. Resumindo não estava fácil para ninguém.
  O que diga o emergente Rock Brasil, que não conseguiu passar incólume a este
  cenário de crise. Com a recessão o mercado consumidor se retraiu e as vendas
  de discos despencaram. Além disso depois de dois anos dominando as paradas o
  Rock Brasil dava sinais de desgaste. O RPM acabara. O Camisa de Vênus também. 
  Paralamas começara a olhar com bons olhos para o mercado exterior, e a Legião
  estava a beira de um colapso. A maioria das bandas da primeira leva do rock
  nacional tiveram que repensar suas carreiras, e aqueles que se aventuram a
  enfrentar a crise acabaram quebrando a cara.
  Foi o ano em que se separou o joio do trigo no rock nacional, que ficou claro
  quais bandas permaneceriam no primeiro time da MPB: Paralamas, Titãs, Legião
  Urbana. E quais cairiam para segunda divisão: Ultraje a Rigor, Capital
  Inicial, Barão Vermelho, Ira! e o resto. A verdade, que desse segundo grupo
  poucas bandas chegariam aos anos 90, mas isso já outra história.
  Pois não é que em meio ao caos econômico, dois empresários cariocas resolveram
  investir em uma nova safra de bandas nacionais. Criando o primeiro selo
  fonográfico dedicado, exclusivamente, ao rock nacional a pertencer a uma
  grande gravadora? Estamos falando evidentemente do malfadado Selo Plug.
  Olhando hoje em dia, qualquer um pode perceber que aquele não era o melhor
  momento para uma empreitada desse tipo. Mas perspicácia e ponderação, nunca
  foram características comuns entre aqueles que trabalham no meio fonográfico.
  Tudo começou com a coletânea Rock Grande do Sul, lançada no verão de 87, que
  reunia as bandas Engenheiros do Hawai, DeFalla, Garotos da Rua, Replicantes e
  TNT. Depois do Rio, São Paulo e Brasília, o Rio Grande do Sul era a bola da
  vez. A RCA/Ariola entusiasmada com o sucesso do álbum bancou a idéia de um
  selo especializado em rock, idealizado pelos empresários Tadeu Valério e
  Miguel Plopschi, possivelmente achando que encontraria um novo RPM no meio
  desse balaio de gatos.
  No entanto o Selo Plug estava destinado ao fracasso, com vendas medíocres e o
  sucesso passageiro de alguns poucos abnegados(Engenheiros do Hawaii e Nenhum
  de Nós) o selo foi mantido na ativa até o final de 89. Quando a BMG comprou a
  RCA/Ariola e acabou com a palhaçada. Num primeiro momento o selo foi
  abandonado, ficando apenas Engenheiros e Nenhum de Nós sob contrato. Depois,
  já nos anos 90, o projeto foi reformulado e vem se mantendo, até hoje, na
  vanguarda em matéria de lançamentos inócuos e medíocres, que resultam
  invariavelmente em fracassos monumentais.
  Além das bandas gaúchas TNT, Defalla, Engenheiros do Hawaii, Nenhum de Nós,
  Replicantes, Garotos da Rua, o selo gravou vários outros artistas. A maioria
  não deu nem para o começo e foi dispensada logo após o primeiro LP. Sintam o
  drama de algumas das primeiras bandas que gravaram pelo selo:
  Hojerizah; Banda de rock carioca,  gravou apenas dois discos para o selo.
  Sendo que o segundo só o crítico musical Arthur Dapieve ouviu falar. Chegou a
  ter um sucesso no meio underground roqueiro; o que significa menos que nada;
  com a música "Pros que estão em Casa". O vocalista Tony Platão é a pessoa mais
  indicada para fazer o papel da cantora Cassia Eller no cinema.
  Picassos Falsos; Também conseguiu o feito de gravar dois discos. Aquele "Oh"
  de espanto. É realmente espantoso, pois não se conhece ninguém que tenha
  ouvido nenhum dos dois discos. O segundo "Supercarioca" foi aclamado pela
  crítica musical da época, o que também não significava grande coisa. Afinal
  eram as mesmas pessoas que colocavam bandas como Fellini, Akira S, Maria
  Angêlica e outros enganadores da mesma estirpe, nas listas de melhores do
  ano...
  Violeta de Outono; Banda paulista reconhecida por seus shows ao vivo e por
  seu som progressivo(argh!!!). Gravaram um disco medíocre pelo selo plug e
  voltaram para o circuito "underground" de onde nunca deviam ter saído.
  Hanói-Hanói; Banda liderada pelo baixista/vocalista e letrista Arnaldo
  Brandão, que deve ter estudado na mesma escola para chatos que Lobão; e se
  formado com louvor! Parceiro de Cazuza; precisa dizer mais alguma coisa?; dono
  de uma das vozes mais irritantes do rock nacional, ganhou notoriedade por ter
  a música "Totalmente Demais" gravada por Caetano Veloso. Pra quem hoje em dia
  grava Peninha isso deve fazer algum sentido.
  Black Future; Quem? Onde? Como? Dupla de impostores cariocas dados a
  espetáculos performáticos e outras coisas cacetes metidas a besta. Chegaram a
  gravar um disco, alguém sabia disso?
  Obina Shock; O Cidade Negra dos anos 80... quer dizer, tão ruim quanto. A
  banda  estava a frente do  seu tempo, pois nos anos 80 a reggae music ainda
  não tinha muita audiência no país. Só na década seguinte o rítmo se tornaria a
  trilha sonora preferida de surfistas, maconheiros e outros desqualificados.
  João Penca e Seus Miquinhos Amestrados; Ah! com esse nome só poderia ser uma
  banda carioca... Já eram veteranos quando foram tirados do ostracismo para
  gravar um disco pelo selo Plug. O grupo havia gravado um disco antológico, com
  o sucesso "Telma eu não sou Gay", para gravadora Polygrana. Mas como acontece
  com toda banda engraçadinha, eles são divertidos no início, depois já não tem
  a mesma graça, e quando ninguém atura a mesma piada, são substituídos pela
  próxima bandinha engraçadinha da estação. No caso: Os Inimigos do Rei.
  Os Aliados - O selo Plug também era chegado numa picaretagem, vocês se lembram
  dos Os Melhores, do sucesso "Suzana". Pois é... tentaram reviver a banda com
  outro nome. Não deu certo. Mas não deu certo mesmo. Foi lançamentos errôneos
  como esse que transformaram o selo numa verdadeira máquina de queimar
  dinheiro, devidamente fechada algum tempo depois.
     


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