segunda-feira, 20 de maio de 2013

Ataque Frontal



Tudo começou em Outubro de 1984, quando os sócios fundadores Renato Martins e Redson, guitarrista e vocalista da banda Cólera, resolveram montar um estúdio de gravação que serviria para ensaio e gravação das bandas punks da época, inclusive o Cólera. Chamaram um amigo para sócio, Marcos Seara Araújo, que também se identificava com o som punk, tendo ele saído do selo seis meses depois. Após uma detalhada pesquisa de preços de equipamentos, viram que a quantia necessária para se montar tal estúdio seria inviável. Decidiram então, gravar o Cólera no estúdio Gravodisc da Continental. Em Dezembro desse ano, mandaram prensar 1.000 cópias daquele que seria o primeiro disco do selo Ataque Frontal. 
Em Janeiro de 1985, foi lançado o primeiro LP do Cólera, "Tente Mudar O Amanhã". Dois meses depois, foi feito o show de lançamento do disco no Teatro Lira Paulistana, cultuado ponto da cena alternativa na época. O evento ocorreu nos dias 15, 16 e 17 de Março, com algumas bandas amigas sendo convidadas para tocar junto.
A programação foi essa: Dia 15 - Juízo Final, com a participação especial da banda baiana, Homicídio Cultural, tocando 3 músicas com o Redson na bateria. Dia 16 - duas bandas foram convidadas, Vírus 27 e Lobotomia, que estava começando. Dia 17 - os já famosos Ratos de Porão, numa rara apresentação como trio, pois o João Gordo havia deixado a banda após o 1º LP, tendo voltado para o RDP para as gravações da coletânea "Ataque Sonoro" e não saído mais até hoje. Os shows foram todos gravados em fitas cassetes, com excessão do Juízo Final, e a gravação do dia 17 resultou no segundo lançamento do selo, o LP "Ao Vivo" com Cólera e Ratos de Porão. Esse foi o segundo lançamento do selo, tendo as primeiras 1.000 cópias em vinil verde. A idéia de lançar esse disco foi do Renato após verificar que a fita cassete scotch em que estava gravada, tinha uma qualidade razoável. Esse LP viraria uma raridade alguns anos depois, pois seria retirado de catálogo devido as desavenças criadas entre ambas as bandas. 
Algumas dessas gravações em cassete, serão colocadas como faixas extras nos CDs do Ataque Frontal, como é o caso do CD "Ataque Sonoro", que tem 2 músicas extras do Cólera, Lobotomia, Vírus 27 e Homicidio Cultural. 
O LP "Sub" tinha sido lançado originalmente pelos Estúdios Vermelhos, selo anterior do Redson, em 1983. Na versão original a capa tinha 3 erros graves. O primeiro era a abertura da capa, feita pelo lado contrário. O segundo era a cor vermelha em outro tom, diferente do planejado. Por fim, as músicas da banda Psykóze e Ratos de Porão tinham os nomes diferentes do vinil. O Ataque Frontal reprensou o disco como era para ter sido concebido originalmente, sendo as primeiras 1.000 cópias com vinil vermelho.
A gravadora seguia a todo vapor. Nessa epóca começou a ser planejada uma coletânea com várias bandas punks que estavam se destacando na cena. O disco teria 10 bandas, fato inédito até então, visto que as outras duas compilações punks brasileiras tinham 3 bandas - "Grito Suburbano" - e 4 bandas - "Sub". 
Em Outubro de 1985 saiu a coletânea "Ataque Sonoro", com Vírus 27, Ratos de Porão, Cólera, Lobotomia, Garotos Podres, Grinders, Armagedom e as cariocas Auschwitz, Desordeiros e Espermogramix.O Ataque Frontal fecha o ano com 4 Lps lançados, fato sensacional, em se tratando de um selo independente de punk no Brasil.
Começa 1986. O Cólera grava seu segundo LP, "Pela Paz Em Todo Mundo", que se tornaria o maior êxito do Ataque Frontal. As primeiras 1.000 unidades se esgotaram em exatos 2 dias, sendo vendidas até as 100 cópias que estavam reservadas para a imprensa e promoção.A segunda prensagem, mais 1.000, acabou em 5 dias. No total, esse disco vendeu em torno de 12.000 cópias. Se não fosse a demora da entrega da prensagem, com certeza teria vendido muito mais. Se tornou o segundo maior disco punk em vendagens, só sendo superado pelo 1º disco dos Garotos Podres, distribuído pela Lup Som, via BMG Ariola.
Nessa mesma época, o Redson teve a idéia de gravar uma banda de um estilo um pouco diferente. A banda Varsóvia do ABC paulista, que se inspirava em Joy Division, e tinha a música Noites estourada nas rádios rock daquela época, a 97 FM de Santo André e a 89 FM, que aquela altura dava uma tremenda força para a cena alternativa. As primeiras 1.000 cópias se esgotaram muito rapidamente, sendo que as lojas Wop Bop Discos e Bossa Nova, do centro de São Paulo foram responsáveis pela venda de quase metade dessa tiragem. Como 1986 foi o ano do Plano Cruzado, tudo se vendia que nem água, e por isso as prensas da Gravadora Continental estavam lotadas e para se prensar um disco demorava no mínimo 3 meses. Aproveitando que o disco ia vendendo bem, chegando na casa das 3.000 cópias vendidas, foi decido fazer mais 2.000. Foi o maior erro do selo, pois quando essas cópias ficaram prontas, as vendas tinham parado e se tornou o único e grande encalhe da história do Ataque Frontal.

Aproveitando a boa fase de vendas e com a grana entrando, foram colocadas duas bandas do ABC paulista no estúdio Vice-Versa, com produção do Redson, para a gravação de seus respectivos discos. A banda Kães Vadius foi descoberta por Renato através de um anúncio do jornal Rocker do ABC. Foi feito um primeiro contato com George G., guitarrista deles, e após uma audição da fita demo, foram imediatamente contratados, pois a AF queria expandir seus lançamentos com estilos diferentes dentro do cenário alternativo e o Psychobilly com certeza, era um desses estilos. O disco deles contou com a participação especial de duas figuras ilustres da cena musical, Kid Vinil que dividiu os vocais com Hulk numa música e André Christovam na guitarra em outra.
A outra banda era o Grinders, pioneiros no estilo skate-punk e um dos destaques da coletânea "Ataque Sonoro", que arrebataram vários fãs e já mereciam um LP próprio. Aliás, só para citar, essa era uma das intenções no lançamento dessa coletânea, dar projeção e revelar novas bandas. 
As únicas "famosas" na época, eram o Cólera e o Ratos de Porão, que já possuiam LPs individuais, e depois desse disco, quase todas as outras saíram em discos próprios, como foi o caso do Grinders pelo Ataque Frontal, Desordeiros e Vírus 27 pela Devil Discos, Lobotomia pela New Face Records, Armagedom pelo selo deles mesmos, Garotos Podres pela Rocker e depois Lup Som.
A meta foi alcançada e com mais esses dois discos, a AF encerra 1986 com 4 lançamentos novamente.
Em Março de 1987, Redson parte com sua banda para uma longa e bem sucedida turnê pela Europa. O AF ajudou a financiar boa parte das passagens do Cólera que ficou 5 meses excursionando pelo Velho Continente. Durante o período de ausência do sócio, Renato tocou sózinho os projetos do selo. Uma das prioridades era a melhoria da distribuição, que até então não contava com a venda para atacadistas. Com mais esse objetivo alcançado e com o dinheiro dessas vendas, várias dívidas foram pagas e novos projetos colocados em andamento. 
Um deles era o primeiro lançamento internacional do AF: a banda finlandesa Massacre. O álbum mostrava uma fase da banda entre 1984 e 1986 e as faixas foram tiradas de dois Eps e uma fita demo, sendo lançado em um único LP apenas no Brasil. Esse disco teve toda a parte visual criada por Adherbal, guitarrista do Lobotomia. O detalhe é que a própria banda exigiu que ele desenhasse a capa.

O outro projeto era a gravação de uma nova coletânea. A mesma fórmula do "Ataque Sonoro" foi usada, 6 novas bandas sem disco próprio, Não Religião, Pupilas Dilatadas, Skárnio, Repúblika, Os Laranjas e Indecisus, e só uma consagrada, Olho Seco, foram escolhidas para o "Contra Ataque". Para produtor foi convidado Clemente, dos Inocentes, que já se aventurava pelos estúdios como produtor. O resultado foi completamente satisfatório, sendo este o disco mais bem elaborado técnicamente da gravadora até então.

Em Agosto, com a volta do Cólera da Europa, a banda teve uma exposição muito boa na mídia, chegando a fazer parte da entrevista central da revista Bizz, dividindo as atenções com as estrelas dos Paralamas do Sucesso. Para aproveitar essa repercussão, o Renato queria que fosse lançado um disco ao vivo com as várias gravações dos shows pela Europa. Começaram então, as primeiras desavenças entre os sócios, porque o Redson queria lançar um EP de Natal e era contra o disco ao vivo. Mais tarde foi explicado o porque, pois seria lançado pelo seu próprio selo após sua saída da AF. Ele vence a parada e a banda entra no estúdio Guidon em Setembro para a gravação das 4 músicas do tal EP. 
O título do disco? "É Natal!!?". Esse disco teve uma vendagem muito fraca, pois devido ao atraso na prensagem acabou saindo uma semana após o Natal e além do mais, era um EP, e as lojas no Brasil não estavam acostumadas com esse tipo de produto e o vendiam pelo preço de LP, tornando-o caro para o público consumidor. Assim, a AF encerra 1987 com só 3 lançamentos.
A saída de Redson do selo era evidente e tal fato se concretizou em 1988. Na partilha dos bens da firma ficou estipulado entre ambas as partes que o valor de venda dos 2 LPs e do EP do Cólera, era o mesmo do restante dos outros títulos. Então a AF foi dividida e o nome ficou com o Renato, pois foi ele quem o criou. Após isso, Redson montou outro selo, chamado A.Indie, que durou poucos meses e na sequência ele vendeu todos os direitos fonográficos dos discos do Cólera, incluindo o "Sub", para a Devil Discos, que os relançou todos em vinil.
Logo após a divisão da firma, a AF continua e os Kães Vadius entram no estúdio Nosso Estúdio de 24 canais para a gravação do EP "Delirium Tremens". Foi novamente escolhido o formato EP, mas dessa vez foi por motivos econômicos, pois a gravadora estava sem verba. A banda havia ganho essas 8 horas de estúdio como parte do pagamento de um cachê para um show. Foi chamado André Christovam para a produção técnica e a qualidade do disco ficou absurdamente boa. Esse disco teve uma aceitação relativamente boa, pois os Kães Vadius tocavam bastante e ajudavam a divulgar o disco com uma excelente performance psycho. Fizeram dezenas de apresentações nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina.
Ainda dentro de 1988 foi organizado um show do programa alternativo Independência Ou Morte! da 89 FM, com as bandas Grinders, Não Religião, Lobotomia e Cólera. Esse show seria gravado ao vivo e lançado em LP com o nome do programa. Foi alugada uma unidade móvel, o Estúdio Móvel e gravado em 24 canais no dia 20 de Novembro no Dama Xoc em São Paulo. As mixagens foram feitas durante 5 dias de Janeiro de 89 no estúdio Gravodisc por Haroldo Tzinulnik, que também produziu o disco, e foram marcadas com antecedência e mesmo sabendo da data, Redson não compareceu ao estúdio para as mixagens das faixas do Cólera, que foram feitas sem a sua presença, pois o estúdio não tinha mais horários disponíveis. Contrariado, ele reclamou da mixagem final e após uma decisão irrevogável da AF, as faixas da banda foram excluídas do LP "Independência Ou Morte!" lançado em Março. Vale citar que essas gravações foram as melhores feitas pela banda até hoje e a fita se perdeu alguns anos depois. Outro detalhe desse disco, é que ele foi inteiramente gravado em vídeo para lançamento simultâneo, só que a produtora de vídeo contratada aumentou abusivamente o preço acertado para a edição e a AF desistiu do projeto. Provavelmente essas imagens devem estar jogadas em alguma prateleira até hoje, se é que não foram apagadas. Foi uma pena porque as imagens ficaram excelentes, pois foram filmadas com 2 câmeras profissionais e com várias cenas de bastidores e todas as bandas ao vivo.
Mantendo os contatos internacionais em dia, Renato fecha um acôrdo com Dave Dictor, vocalista da banda M.D.C. da Califórnia, para lançamento de 2 LPs deles em terras brasileiras. Desse modo, foi lançado aqui o LP "Millions of Dead Cops", para muitos um dos melhores discos de hardcore da história. Era previsto também, o lançamento do disco "Multi-Death Corporation", que infelizmente não chegou a ocorrer.

O selo Sulcos Suicidas fez uma parceria com a AF para lançamento do compacto de 7" da banda Pupilas Dilatadas, que havia participado do "Contra Ataque". Eles bancaram a gravação do disco, que teve a produção do então desconhecido Carlos Eduardo Miranda, e a AF arcou com todos os outros custos. Foram feitas 1.000 cópias desse compacto, contando com todas as dificuldades da vendagem desse formato de disco. Quando a AF fechou o escritório e depósito na Rua Barão de Itapetininga, centro de São Paulo, foram deixadas guardadas umas 400 cópias do compacto e mais alguns fotolitos no depósito do edifício, que meses mais tarde foram jogados fora inavertidamente pelo zelador.
Dessa forma em 1990 se encerrou a história da AF, um selo independente que tentou sobreviver no Brasil, com todas as dificuldades da época.



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