quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Chance


Existem grupos que procuram agradar o maior número de pessoas possível e outros que buscam atingir da maneira mais profunda o seu público, mesmo que isso signifique negar as vantagens do estrelato pop.
O Chance faz parte desse segundo time. Eles trabalham com texturas delicadas e um espantoso uso dos graves, o que confere a sua música uma outra carga emocional. Essa característica foi prejudicada, neste show. Por três fatores básicos - provavelmente alheios à vontade do trio -: o som baixo, que rompe o envolvimento com a platéia: o calor, que às vezes torna sufocante a música (onde está o ar-condicionado do Dama Xoc?): e o uso de uma bateria eletrônica, provavelmente uma Roland 707, de timbres limitados e amplamente utilizada em jingles e trilhas de comerciais. O que acontece aí é que a limitação da bateria, combinada ao piano, faz tudo parecer um pouco a mesma coisa, escondendo as boas linhas que Angelo Barcellos extrai do marfim.
À frente, temos o vocal monocromático e quase falado de José Augusto Lemos (também teclados e guitarra) e as muitas nuances da excelente cantora Márcia Mont Serrat, que também ataca nos teclados e guitarra. Tudo isso, mais uns bóings (boom tschack) e outros ruídos sampleados, compõe a intrincada textura das músicas do Chance.
O show, que começou etilicamente confuso, foi ganhando em envolvimento, criando o clima necessário para a boa compreensão da proposta do grupo, e atingiu seu ponto máximo no mix de "Você É Moda" e "Madame X" - esta última lançada na coletânea Não São Paulo 1.
Além disso, eles demonstraram extremo bom senso em fazer um show no tamanho exato (cinco ou seis músicas razoavelmente longas) para uma platéia um pouco preocupada apenas em dançar. A utilização de vídeos produzidos pela própria banda é outra marca que acrescenta em muito o trabalho do trio. Utilizando-se da técnica de multimonitores sincronizados, o Chance faz uma leitura metalingüística do universo do disco, com cores e ritmo.
A certa altura do show, Márcia fala sobre as raras apresentações do grupo e os eventuais problemas com o equipamento de som. Normal e normal. Um conjunto como o Chance não é para qualquer cérebro e depende de fatores geográficos e culturais para ser compreendido. Isso quer dizer: uma banda fora do universo pop, que consegue ter uma linguagem própria, envolve e hipnotiza os que conseguem decifrá-la e. além de tudo, que tem uma característica de Terceiro Mundo, já que utilizamos ritmos brasileiros em meio à parafernália eletrônica.

MÁRCIA MONTSERRATH - Voz, Guitarra & Percursão
ANGELO BERSELLI - Teclados, Piano e Programação
JOSÉ AUGUSTO LEMOS - Teclado Eletrônico , Programação e Piano



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